domingo, 17 de outubro de 2010

A ciência pode nos dizer o que é bom?

A ciência está rapidamente se tornando a religião do homem moderno, e a iniciativa para desbancar o cristianismo vem sendo tomada pelos novos ateus, como Sam Harris. Jon Stewart, do The Daily Show, entrevistou Harris no começo desta semana sobre seu novo livro, no qual ele argumenta que a ciência pode nos guiar ao verdadeiro conhecimento do que é bom. Ele não tem em vista o bom no aspecto utilitário, como no caso da máquina que trabalha, ou da medicina que cura, mas bom no sentido moral, como um caminho superior para viver a vida, que é única. Harris começou a entrevista apontando que o mundo tem um problema: encontrar um código moral comum pelo qual viver. Ele lamenta que os únicos que pensam haver verdadeiramente respostas corretas para questões morais são religiosos fanáticos [sic] que imaginam a Terra sendo da idade de seis mil anos. Todos os outros, ele argumenta, pensam que há algo suspeito sobre a noção de moral verdadeira. A despeito disso, ele insiste, apesar de tudo, que a ciência pode ceder naquilo que se tem considerado os cristãos errados por todos estes séculos: verdadeiras respostas sobre moral. Ela pode prover isso, afirma Harris, sem a bagagem da religião, a qual ele insiste dar ao povo más razões para sermos bons, enquanto boas razões – presumivelmente vindas da ciência – estão disponíveis atualmente.


Harris é provavelmente bem intencionado – acima de tudo, o mundo tem realmente um problema –, mas ele faz uma confusão básica. Ele está assumindo que, pelo fato de algumas pessoas abusarem da religião e fazerem coisas erradas em nome da religião, a religião em si não pode ser uma origem para o verdadeiro conhecimento moral. O comportamento de pessoas más, é evidente, nos revela algo sobre aquelas pessoas, mas não muito sobre se a religião que elas se propõem a seguir é verdadeira ou não. Harris comete esse erro para tentar conseguir que a ciência faça algo que ela não pode. Entendendo que a ciência é boa em sua busca pela verdade, com todos os seus modelos, e que a ciência é moderna e não possui a bagagem da “religião organizada”, ele conclui que a ciência é a escolha perfeita para o moderno e neutro banco de dados.


Mas isso é simplesmente falacioso. A ciência não pode descobrir verdadeira moral mais do que ela pode explicar por que a coragem na batalha é preferível à covardia. Sobretudo, a covardia não seria mais satisfatória para salvar sua vida e preservar seus genes para a próxima geração? A ciência pode analisar a frequência estatística da coragem, e talvez porque ela esteja ocorrendo no cérebro de uma pessoa destemida, mas ela não pode jamais nos dizer porque é “melhor” arriscar a vida pela salvação da vida de um amigo.


Stewart nunca se incomodou em desafiar Harris sobre conceitos tais como “melhor”, ou a definição de “bom”, para que se importasse. Como pode Harris usar a ciência para determinar o que é bom, sem primeiro ter noção do que é “bom”?! Cada exemplo de “bom” não é significativo somente se, em primeiro lugar, alguém tem em mente uma escala, um continuum no qual as coisas se movam do terrível, para o ruim, para o bom, para o melhor, e, por último, e talvez apenas teoricamente, para o “melhor”? Qual é a origem dessa escala para Harris?


Stewart nem se incomodou de pedir a Harris que explicasse como a ciência – essa suposta origem do conhecimento moral – poderia, por exemplo, condenar um verdadeiro Dr. Mal, como o famigerado Anjo da Morte do Terceiro Reich de Hitler. Educado na Universidade de Frankfurt em Medicina e Filosofia, a dissertação de Josef Mengele em 1935 trata de supostas diferenças raciais na estrutura da mandíbula inferior. Seu trabalho “científico” incluiu do mesmo modo descidas bárbaras dentro do mal, como deixar pacientes em câmaras de pressão, testando-os com drogas, experimentos com castração, congelamento e exposição a outros traumas. Outros experimentos ameaçadores incluíram tolerância a isolamento, injeções com germes letais e a remoção de órgãos. Seus registros de laboratório estavam sem dúvida meticulosamente documentados e ele não estava, aparentemente, violando qualquer das “leis” do estado nazista. Esse monstro poderia sem dúvida explicar que ele estava meramente usando o método científico para melhorar a vida daqueles que os nazistas consideravam dignos. E, a fim de não pensarmos somente nos regimes bárbaros, como os de Hitler, poderíamos descer dentro de escuridão semelhante: notícias recentes revelam experimentos feitos por cientistas americanos na década de 1960, nas quais pacientes mentais foram intencionalmente expostos a doenças venéreas.


Então, não Sr. Harris, a ciência pura não está onde você poderá encontrar conhecimento moral. A ciência é meramente uma metodologia para adquirir conhecimento prático, para coletar evidência, descrever inferências e testar uma de suas descobertas. Ela não pode realmente responder questões profundas. Ela não pode nos dizer por que nos reconhecemos e amamos a beleza, ou o que é o amor, o que importa. Ela não pode explicar como sabemos que lealdade é boa e traição, má, ou o que o mal é atualmente. Ela não pode demonstrar por que música ou poesia, ou uma poderosa história podem comover a alma, ou dar sentido ao sentimento de reverência quando olhamos para os céu em uma noite estrelada. Mais significativamente, como Mengele esclareceu, ela não pode prover embasamento para nosso conhecimento moral, que todos os seres humanos têm intrinsecamente valor e explicar por que o valor deveria ser respeitado.


Não, Sr. Harris, se você precisa responder sobre o que é bom, o que é certo, o que é nobre – o que é melhor para o futuro da humanidade –, você deveria primeiro identificar o início de tudo o que é bom, tudo o que é certo, tudo o que é nobre. Mas você não encontraria essas respostas em um livro de ciência. A fonte da ciência, e de tudo o mais, foram deixados em um livro diferente.


(Traduzido do blog PleaseConvinceMe e republicado por Questão de Confiança)

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